NO TOPO SEM SUAR



Ninguém em LINONGO se lembrava exatamente quando a regra antiga deixara de ser obedecida. Sabia-se apenas que estava escrita desde os primórdios: do suor do rosto viria o pão. Era assim que os velhos de Maho, a aldeia-mãe, ensinavam aos mais novos. Mas com o tempo, a cidade cresceu, ganhou muros, cargos, vaidades e decidiu que suar era coisa de quem ficava em baixo.

LINONGO passou a acreditar nos atalhos.

No bairro de Muzi, vivia a família que mais parecia um retrato da própria cidade. Citiengo, o primogénito, fora o primeiro a subir. Não porque soubesse, mas porque aprendera a agradar. Subiu depressa e nunca olhou para trás. Museza, sua sombra fiel, seguiu-o sem perguntas. Cisoló, inquieta e contraditória, sabia demais para confiar em alguém, mas pouco para confiar em si mesma. Kanawa acreditava que a vida recompensava apenas os bem-aventurados, não os persistentes. Yuma, a mais bela, confundia portas abertas com merecimento. Muntu, pessimista por vocação, previa o fracasso como quem anuncia o tempo.

Havia também Cisita, cuja lealdade mudava conforme o vento, e Mucisi, que apontava caminhos errados com convicção suficiente para parecer verdade. Vingundo espalhava rumores como quem semeia ervas daninhas, enquanto Munene, autoritário, confundia ordem com medo.

À margem de todos, estava Ngandu, pescador sem formação, mãos gastas de rio, que conhecia o tempo das águas e o silêncio dos peixes. Sabia esperar. Sabia trabalhar. Mas ninguém em LINONGO valorizava quem sabia esperar.

E havia Macaca.

Macaca estudara. Muito. Acreditara que o saber lhe abriria as portas da cidade alta. Mas as portas não se abriram. O diploma envelheceu antes dele. O ressentimento, não. Em silêncio, Macaca observava os incompetentes subirem, um a um, sustentados por favores, promessas vazias e rituais obscuros que ninguém admitia praticar, mas todos conheciam.

Foi Kaprimera, o mal influenciador, quem ensinou o segredo: O topo não é para quem sua. É para quem ousa.

Seu filho, Ndala Kamprimera, aprendeu bem demais. Inteligente, frio e ambicioso, arquitetou esquemas invisíveis que sugaram os serviços da cidade. Saúde enfraqueceu. Educação empobreceu. O trabalho tornou-se escasso. Ainda assim, Ndala subiu. Sem suor. Sem culpa.

LINONGO aplaudiu enquanto ainda havia luz.

O colapso veio devagar, como rachadura em parede antiga. Quando perceberam, os que estavam no topo não sabiam sustentar nada. Sabiam apenas ocupar espaço. As decisões falharam. As promessas apodreceram. A cidade começou a cair por dentro.

Foi então que procuraram culpados.

Macaca, agora ouvido, falou com amargura demais para ser ignorado. Cisita foi desmascarado. Mucisi perdeu a voz. Vingundo ficou sem público. Munene gritou sozinho.

E Ngandu continuou a pescar.

No fim, LINONGO compreendeu tarde demais: o topo alcançado sem suor não suporta peso algum. Cai. E ao cair, arrasta todos.

Nos escombros, restou a velha regra intacta, à espera de quem tivesse coragem de recomeçar.


LIÇÕES

  • O mérito não grita, mas sustenta.
  • O saber desprezado volta como juízo, Ver mais...
  • Deus não revogou a lei do suor nós é que a ignorámos. Ver mais...

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